sábado, 13 de março de 2010

O primeiro milagre do heliocentrismo

por Hélio Schwartsman


[Folha de São Paulo, 03/12/2009]

Eu, Claudio Angelo, editor de Ciência da Folha, e Rafael Garcia, repórter do jornal, decidimos abrir uma igreja. Com o auxílio técnico do departamento Jurídico da Folha e do escritório Rodrigues Barbosa, Mac Dowell de Figueiredo Gasparian Advogados, fizemo-lo. Precisamos apenas de R$ 418,42 em taxas e emolumentos e de cinco dias úteis (não consecutivos). É tudo muito simples. Não existem requisitos teológicos ou doutrinários para criar um culto religioso. Tampouco se exige número mínimo de fiéis.

Com o registro da Igreja Heliocêntrica do Sagrado EvangÉlio e seu CNPJ, pudemos abrir uma conta bancária na qual realizamos aplicações financeiras isentas de IR e IOF. Mas esses não são os únicos benefícios fiscais da empreitada. Nos termos do artigo 150 da Constituição, templos de qualquer culto são imunes a todos os impostos que incidam sobre o patrimônio, a renda ou os serviços relacionados com suas finalidades essenciais, as quais são definidas pelos próprios criadores. Ou seja, se levássemos a coisa adiante, poderíamos nos livrar de IPVA, IPTU, ISS, ITR e vários outros "Is" de bens colocados em nome da igreja.

Há também vantagens extratributárias. Os templos são livres para se organizarem como bem entenderem, o que inclui escolher seus sacerdotes. Uma vez ungidos, eles adquirem privilégios como a isenção do serviço militar obrigatório (já sagrei meus filhos Ian e David ministros religiosos) e direito a prisão especial.

A discussão pública relevante aqui é se faz ou não sentido conceder tantas regalias a grupos religiosos. Não há dúvida de que a liberdade de culto é um direito a preservar de forma veemente. Trata-se, afinal, de uma extensão da liberdade de pensamento e de expressão. Sem elas, nem ao menos podemos falar em democracia.

Em princípio, a imunidade tributária para igrejas surge como um reforço a essa liberdade religiosa. O pressuposto é o de que seria relativamente fácil para um governante esmagar com taxas o culto de que ele não gostasse.

Esse é um raciocínio que fica melhor no papel do que na realidade. É claro que o poder de tributar ilimitadamente pode destruir não apenas religiões, mas qualquer atividade. Nesse caso, cabe perguntar: por que proteger apenas as religiões e não todas as pessoas e associações? Bem, a Constituição em certa medida já o fez, quando criou mecanismos de proteção que valem para todos, como os princípios da anterioridade e da não cumulatividade ou a proibição de impostos que tenham caráter confiscatório.

Será que templos de fato precisam de proteções adicionais? Até acho que precisavam em eras já passadas, nas quais não era inverossímil que o Estado se aliasse à então religião oficial para asfixiar economicamente cultos rivais. Acredito, porém, que esse raciocínio não se aplique mais, de vez que já não existe no Brasil religião oficial e seria constitucionalmente impossível tributar um templo deixando o outro livre do gravame.

No mais, mesmo que considerássemos a imunidade tributária a igrejas essencial, em sua presente forma ela é bem imperfeita, pois as protege apenas de impostos, mas não de taxas e contribuições. Ora, até para evitar a divisão de receitas com Estados e municípios, as mais recentes investidas da União têm se materializado justamente na forma de contribuições. Minha sensação é a de que a imunidade tributária se tornou uma espécie de relíquia dispensável.

Está aí o primeiro milagre do heliocentrismo: não é todo dia que uma igreja se sacrifica dessa forma, advogando pela extinção de vantagens das quais se beneficia.

Sei que estou pregando no deserto, mas o Brasil precisaria urgentemente livrar-se de certos maus hábitos, cujas origens podem ser traçadas ao feudalismo e ao fascismo, e enfim converter-se numa República de iguais, nas quais as pessoas sejam titulares de direitos porque são cidadãs, não porque pertençam a esta ou aquela categoria profissional ou porque tenham nascido em berço esplêndido. O mesmo deve valer para associações. Até por imperativos aritméticos, sempre que se concede uma prebenda fiscal a um dado grupo, onera-se imediatamente todos os que não fazem parte daquele clube. Não é demais lembrar que o princípio da solidariedade tributária também é um dos fundamentos da República.

Hélio Schwartsman, 44, é articulista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas.

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quinta-feira, 4 de março de 2010

DE DENTRO DO SER

por Riva Moutinho


Do lado de fora da Floresta uma selva de pedra devora os sonhos de Zé Marinho. Nasceu na rua, cresceu numa favela, aprendeu todas as manhas do ganho fácil do mundo na Febem, onde internado ficou por quase dois anos. Na maioridade decidiu que a cidade não seria o seu lugar. Escolheu uma estrada e caminhou até quando não havia mais fôlego para continuar. Avistou uma floresta, uma caverna; estabeleceu que ali seria seu lugar de morada e dos anos que se seguiram, todos foram na obediência rígida que do mundo se afastaria.

Fruto de um relacionamento alcoólico entre os pais moradores de rua, Zé Marinho conheceu a rua

Fruto de um relacionamento alcoólico entre os pais moradores de rua, Zé Marinho conheceu a rua no dia que nasceu. Impossibilitado de freqüentar regularmente uma escola, vendia balas, bombons e fazia toda sorte de malabarismos nos sinais a fim de conseguir algum trocado. Um dia voltando para a favela que morava; policiais numa batida de rotina o levaram como suspeito de vender drogas em uma das esquinas da região. Sentenciado a um crime que nunca cometeu, sofreu na Febem e aprendeu que a vida era mais vida pra quem sabia ser esperto e que esperteza significava malandragem e que malandragem era um ato cometido por todos inclusive por engravatados, policiais, políticos, religiosos... mas apenas pessoas como ele pagavam por ela, mesmo sem ter cometido.

Quando o soltaram passou em casa e descobriu que seus pais, que nunca o visitaram, não moravam mais por lá. Sem saber o paradeiro deles e sem, absolutamente, nada; decidiu tentar procurar outro mundo antes que a vontade de desistir do mundo em que vivia tivesse a coragem de se tornar realidade.

No caminho pela estrada escolhida recebeu poucas ajudas, muitos insultos e apanhou várias vezes. Cansado e deitado próximo aos matos na beira da estrada num sol de quase 40 Graus, assustou quando uma senhora de idade bateu a porta do seu carro deixando próximo a ele, uma cesta com bolos, biscoitos e pães, além de muita água e suco. Este gesto o fez agradecer a Deus pela primeira vez em sua vida e o deu forças para caminhar por mais alguns quilômetros até encontrar a floresta que seria, por um longo tempo, seu mundo de sobrevivência.

Anos se passaram, até que um dia Zé Marinho foi surpreendido por um senhor que entrou na floresta para avaliar o local, pois próximo dali havia uma fazenda que ele comprara. Curioso e cuidadoso, seu Beto procurou fazer amizade com Zé Marinho e dia após dia ia descobrindo a história dele. Tentou levá-lo várias vezes para a fazenda, mas todas falharam.

Certo dia, Seu Beto, viu Zé Marinho espiando da janela do lado de fora. Sem assustá-lo chamou-o para tomar um café e, pela primeira vez, depois de muitos anos, ele sentou numa cadeira e, pela primeira vez em sua vida tomou café na mesa como uma família. O choro compulsivo de Zé Marinho encheu o casarão antigo e levou às lágrimas a família de Seu Beto.

Cinco anos mais tarde, Seu Beto faleceu por causa de um infarto fulminante quando caminhava pela sua propriedade. Sua família cumpriu seus desejos pós morte e Zé Marinho permaneceu como administrador da fazenda.

Por muitos outros anos, ele serviu aquela família com toda intensidade do seu ser. Foi pai, amigo, conselheiro, administrador, servo, guarda-costas... e incentivado pela família do Seu Beto, todos resolveram conhecer o lugar de onde Zé Marinho saiu.

Poucas casas naquela favela lembravam seu tempo, nenhuma pessoa daquela comunidade sequer imaginava quem era ele. Com o coração apertado e a voz embargada, Zé Marinho reconheceu, por detalhes, o lugar de onde saiu. Impossível foi conter as lágrimas e uma mistura de sentimentos o envolveu, bem como vontades de rever alguém conhecido ou, quem sabe, seus pais.

Uma senhora deitada na esquina chamou a atenção de Zé Marinho que imediatamente foi ao seu encontro. Procurou saber se estava tudo bem e, tirando tudo o que havia no bolso, entregou a aquela senhora com um sorriso na face.

A intensidade de tantos sentimentos o cansou e o fez dormir pesadamente durante a viagem de volta a fazenda. Acordou apenas para comer alguma coisa numa das paradas do ônibus, onde acabou vendo um senhor magro com roupas muito sujas sentado em um dos bancos, de cabeça baixa. Zé Marinho não disse nada, pegou sua bolsa com roupas no ônibus e entregou para aquele senhor. Uma das filhas do Seu Beto vendo a atitude dele pegou uma boa quantia de dinheiro e deu ao senhor também.

A vida correu dentro da normalidade das responsabilidades da fazenda por muito e muito tempo.

Zé Marinho terminará sua vida sem saber que a senhora que ele ajudou próximo ao local onde morava, era a mesma que o ajudou quando ele estava quase a morte na beira da estrada e que sua atitude a fez procurar ajuda e a rever sua família.

A vida ensinou muito a ele, inclusive a ver Deus contemplando cada criação que Ele fez. Zé Marinho não aprendeu a ingratidão que, insistentemente, tentaram lhe ensinar. Antes procurou fazer para os outros o que com ele, na sua época, a grande maioria não fez.

Zé Marinho terminará sua vida sem saber que o senhor que ele ajudou na rodoviária era o seu pai e que aqueles gestos o fizeram procurar uma clínica onde foi muito bem tratado conhecendo uma família que o empregou como caseiro apenas para lhe dar um lar.

Se por um lado a vida deu ao Zé percalços, por outro lado, Zé deu à vida ações de amor e ensinou que o melhor não é viver uma vida boa, mas fazer a vida ser boa para aquele que Deus chamou de “nosso próximo”.

Riva Moutinho 13/07/2007

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terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

A Religião Comportamental

por Riva Moutinho

Depois de conviver por mais de duas décadas com a religião, hoje, faço questão de deixar claro que não faço parte de qualquer religião bem como não tenho que isto seja algo vital para o ser humano, uma vez que a religião serve apenas para afastar os homens de Deus e aliená-los de várias maneiras sórdidas desenvolvidas ao longo do tempo.

Não vou repetir coisas que já escrevi antes, pois pretendo aqui ter outro foco e espero deixar isto claro.

A religião educa (esta é uma maneira educada de falar) o ser humano a criar hábitos religiosos. É o cara que sempre que passa em frente a uma igreja...

A religião educa (esta é uma maneira educada de falar) o ser humano a criar hábitos religiosos. É o cara que sempre que passa em frente a uma igreja católica faz o chamado “nome do Pai”, ou o espiritualista que tem um incenso na casa para cada momento, ou o espírita que adorna os cômodos com imagens, ou o evangélico que ouve apenas músicas do seu grupo religioso, ou os macumbeiros que carregam seus patuás... E por ai vai. Mas a religião faz muito mais que isto, ela cria um comportamento religioso que ultrapassa a realização de rituais ou ritos e vão compor o caráter, a personalidade no indivíduo.

Vou me basear na religião evangélica na qual convivi mais proximamente, no entanto percebe-se que todas as demais promovem a mesma coisa.

O conjunto de regras impostas, às vezes, de maneira bem sutil pelas igrejas evangélicas moldam o caráter dos seus seguidores, promovendo ao final uma verdadeira lavagem cerebral. Digo isto porque percebe-se que tal seguidor abandonou o raciocínio racional e passou a defender o enriquecimento ilícito, por exemplo, como se fosse algo absolutamente normal de se fazer. Chega a tal nível de alienação que se o seu líder for preso pela polícia de algum país vizinho, o seguidor acredita que o que está acontecendo é uma conspiração, uma perseguição religiosa. Coisa esta que já se extinguiu (ao menos aqui no Brasil) há um bom tempo.

Deixando um pouco a análise comportamental entre o seguidor e o seu líder de lado, gostaria de analisar a religião comportamental que acontece entre os seguidores.

Os evangélicos sentem um prazer (quase um orgasmo) por não praticarem o que, eles chamam de “mundo”, pratica. Algumas destas eles mesmos estabeleceram como regras de conduta. Logo eles não bebem, não fumam, não ouvem música secular, não praticam o sexo antes do casamento (ao menos fazem disso um padrão moral); e se sentem acima dos que tais coisas praticam. Definitivamente, eles buscam viverem separados no mundo. Não se misturam. Tal comportamento demonstra que, de fato, o que eles seguem é a religião ou a cabeça (muito das vezes louca) de seu líder religioso. Isto pra mim é fato por um motivo muito simples: Na Bíblia vejo Jesus fazendo justamente o contrário. Ele se mistura, não faz distinção de nenhuma criatura e não se sente melhor do que ninguém, antes, procura ajudá-los em suas necessidades. Jesus não cria uma religião e nem procura adeptos para ela. Ele apenas busca estar e ajudar as pessoas.

Ultimamente entre os evangélicos o verbo “prosperar”, ganhou ares de objetivo único em vida e uma demonstração clara que, se você o alcança, então, de fato, você é um filho de Deus. E o que se estabelece de maneira bem silenciosa é uma concorrência com o chamado irmão ou irmã. Ciúmes, invejas, iras, mentiras, ganância, usurpação... Vale qualquer coisa desde que seja feita de maneira sutil e, principalmente, “com todo amor”. Aliás, os pastores são, de fato, mestres em ensinar tais comportamentos para suas ovelhas.

As amizades geradas, normalmente, são tão firmes quanto um cata-vento em um furacão. É por isto que se você comete o pecado de se “desviar do caminho” ou de desenvolver idéias que contrariem a instituição ou a vaidade de seus líderes; olhares tortos surgem, a pessoa é posta de lado e, dependendo do nível que atingir, poderá ser colocada na “fogueira” e receber o seu comunicado de exclusão. Digo isto por experiência própria, pois não apenas fui excluído da última instituição religiosa a qual pertencia há algum tempo atrás, como fui ameaçado de surra e de morte pelo líder de lá que é visto como um santo perante os seus numerosos seguidores.

De fato, o que se percebe é que a religião moldou o caráter e a personalidade do indivíduo, o qual dificilmente conseguirá extrair toda esta maldade de si, ou antes, dificilmente conseguirá perceber o cheiro fétido dos seus próprios excrementos.

Quando percebem, os religiosos de ontem tendem a virar os não-religiosos de hoje e, com isto, ganham asas que tanto queriam e começam a fazer coisas que antes a religião os proibiam. “Ah!!! Finalmente a liberdade!!!” Por um lado, de fato ganharam a liberdade, mas por outro, dificilmente perceberão que o seu comportamento religioso permanecerá agarrado em suas entranhas, mesmo que já tenham deixado de praticar os antigos rituais.

Dessa maneira, permanecem ciúmes, invejas, iras, mentiras, ganância, usurpação... Permanecem com a capacidade altamente desenvolvida de falarem mal de outrem pelas costas, de levantar falso para o diabo e para Deus contra alguém e, quando são instigados a pedir perdão, escolhem o subterrâneo escuro para realizarem tal ato a fim de manterem seus “status quo”. Sobem em edifícios grandiosos a fim de ecoarem falsas verdades como penas ao vento, mas em seus atos de arrependimentos são incapazes de resgatar uma pena que seja. São homens viris em promoverem o caos e se safarem com extrema esperteza, mas são frangas cacarejantes em assumirem seus atos.

Fica extremamente claro que a sordidez existente nos ambientes religiosos se derrama sobre os chamados não-religiosos simplesmente porque a grande maioria ou acredita que a questão é simplesmente abandonar rituais, ou porque, de fato, não são homens (independente do sexo) suficientemente capazes de abandonarem a mentalidade infantil e o estado degenerativo de suas personalidades.

A verdade, então, permanece sempre sendo disfarçada porque os conchavos permanecem existindo e a transparência continua sendo abnegada.

Seja qual for o lado: religioso ou não-religioso todos carecemos de uma dose cavalar de vergonha na cara, de hombridade. Coisas que, de fato, nos façam abandonar tais meninices.

Caso contrário, salve-se quem puder! Porque ser diferente por aqui é ser anormal.

- 25/01/2010 -

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quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Por que ir à igreja é o menor dos seus problemas

por Paulo Brabo


Estou inteiramente convicto (e já devo ter deixado suficientemente clara essa posição) de que a fidelidade de uma pessoa ao ensino, à herança e às expectativas de Jesus não tem nenhuma relação com a assiduidade da participação dessa pessoa nas atividades de uma agremiação religiosa de sua escolha. Sou ao mesmo tempo obrigado a apontar constantemente, através de citações e circunlóquios, que nada há de novo ou de original nessa idéia aparentemente revolucionária. Seria especialmente inexato chamá-la de revelação recente, visto que essa mesma noção tende a voltar periodicamente à tona ao longo dos séculos, e já esteve presente, por exemplo, na boca coletiva de Erasmo, de Tolstói, de Dostoiévski, de H. G. Wells, de Harnack, de Feuerbach, de Kierkegaard, de Simone Weil, de Bonhoeffer e – ainda mais tremendo e prenhe de consequências – do próprio Jesus, de seus primeiros seguidores e de seus primeiros biógrafos.

Por outro lado, é inteiramente natural que a idéia soe inédita e subversiva a cada vez que é articulada. Porque, se for verdade (como vejo que é), e se for cada vez mais aceita como verdade (como penso que está sendo, e por inúmeros motivos), haverá portentosas consequências para todo mundo.

Haverá, por exemplo...

Haverá, por exemplo, graves consequências para as próprias agremiações de que estamos falando. Outro dia alguém me escreveu, em tom de jocosa provocação, perguntando o que deveriam fazer os pastores evangélicos se todas as suas ovelhas seguissem os passos do Paulo Brabo e deixassem sumariamente de frequentar suas próprias igrejas. A resposta, que mandei imediatamente, não poderia ter sido mais enfática: “deveriam, evidentemente, tomar por concluída a sua tarefa!”

Se essa noção for sendo aceita como verdadeira, haverá ainda toda uma gama de consequências para os próprios frequentadores e ex-frequentadores de igreja, bem como para os candidatos a uma coisa e outra. Em especial, o que persiste no ar neste momento (em que um número cada vez maior de cristãos parece estar inteiramente pronto a debandar sensatamente do jugo da formalidade eclesiástica e abraçar a vertiginosa vocação do cristianismo secular) é a tentação de pensar que o ato escrupuloso e heróico de deixar de ir à igreja representa o atingimento de uma nova e notável estirpe de maturidade espiritual, um nirvana ao qual a massa dos igrejeiros, em sua cegueira e obtusidade, parece estar tão distante de alcançar.

É hora, evidentemente, de tratar deste assunto, e esta é a justificativa destas reflexões. Porque pode ser que você sinta-se finalmente pronto para dar o definitivo e corajoso passo na direção de Deus e para longe da religião; talvez você sinta-se enfaticamente chamado a participar da esclarecida elite dos que entenderam a mensagem secreta de Jesus e estão prontos a abraçar as consequências rigorosíssimas desta gnose; talvez você sinta-se inequivocamente desafiado a abandonar os confortos da igreja institucional em favor do cristianismo puro e simples daquele que não tinha, não tem e não terá onde reclinar a cabeça.

Pois se você se encaixa neste perfil, jovem candidato, o que você precisa ouvir é que a motivação legítima para abandonar a instituição deve ser a custosa consciência de não ser melhor do que ninguém, e não a gostosa conclusão de ter alcançado maior compreensão do que alguns; deve ser a insana disposição de abraçar a comunhão com todos, não a elite com uns poucos; deve nascer de uma nova capacidade de encontrar sensatez em todas as tradições religiosas, e não de uma velha habilidade de apontar adequadamente os defeitos da sua. Deve estar relacionada à vontade de abrir todas as portas, e não ao alívio de ver fechada uma. Antes de decidir deixar de fazê-lo, é preciso sacar que frequentar uma igreja é provavelmente o menor dos seus problemas.

A verdade, incrivelmente, é que Jesus não veio libertar você ou quem quer que seja daquilo que costumo chamar de igreja formal ou institucional.

Ele deixou claro, e disso não deve haver dúvida, que cada seguidor seu deve ser capaz de abraçar simultaneamente o peso da liberdade e a graça da responsabilidade. Ele chegou a dizer que este seria um caminho estreito, adotado por poucos ou com muito custo, mas não chegou a dizer onde o caminho levaria ou o que exigiria – provavelmente porque cada um teria de encontrar sua própria resposta, e no final haveria uma resposta para cada pessoa. Ele sem qualquer dúvida denunciou espetacularmente as armadilhas e tentações da religiosidade formal e mostrou-se invariavelmente pronto a criticar os religiosos profissionais em sua missão autoimposta e diabólica de semear a culpa e endossar a opressão. Por outro lado, e deve ser a hora de enfatizarmos isso, Jesus não chegou a convidar uma única pessoa, fosse um judeu trêmulo ou um carola romano pagão, a abandonar ou rejeitar sua própria tradição religiosa.

A tremenda singularidade dos evangelhos não está na revelação de que Deus não exige os sacrifícios da religiosidade e não encontra prazer neles; isso os profetas haviam deixado suficientemente claro quatrocentas páginas antes. A reviravolta trazida pelo exemplo, pela palavra e pela pessoa de Jesus é, como em tudo que diz respeito a ele, ao mesmo tempo mais exigente e mais sutil; é ao mesmo tempo mais pessoal e mais universal. Jesus não veio libertar o homem religioso das instituições religiosas, veio libertar a humanidade inteira de um paradigma ainda mais debilitante e infantilizante, de uma visão de mundo que chamarei, em regime temporário e na falta de melhor termo, de espiritualidade devocional.

Em tudo que faz e diz Jesus ao longo dos evangelhos promove a demolição dessa estirpe devocional de espiritualidade, propondo em seu lugar uma nova e revolucionária alternativa – uma espiritualidade, por assim dizer, existencial. Ao longo desta série de artigos quero deixar claro esta distinção e este método.

O fato é que a espiritualidade devocional é de tal modo insidiosa que você pode abandonar a igreja formal e ainda permanecer inteiramente aleijado pela espiritualidade devocional; em contraste, há os que permanecem voluntariamente debaixo das disciplinas (sempre arbitrárias) da instituição mas já foram inteiramente salvos das cadeias e escamas da espiritualidade devocional, e estes de nada mais precisam ser libertos. É por isso que é preciso ficar claro que deixar de ir à igreja não resolve nenhum problema e não envolve mérito algum. Frequentar a igreja é nada, e deixar de fazê-lo nada é; pelo contrário, sete demônios novos podem estar prontos para assumir o lugar daquele que você pensa que expulsou.

Aquilo de que precisamos ser salvos é da espiritualidade devocional – em favor de uma espiritualidade essencial e existencial, e isso pela exposição ao espírito subversivo de Jesus. É verdade que, em termos estritos, nenhuma manifestação exclusivista e proselitista de religião formal sobreviverá (e estou agora esperando que tudo dê certo) à vitória final da espiritualidade existencial. O que teremos na conclusão será uma forma inegociavelmente generosa e inclusiva de ortodoxia, mas esta é outra história. A missão de Jesus não é acabar com a religião. Embora a capitulação da religiosidade seja o resultado inevitável da assimilação universal da sua mensagem, seu cerne pulsante reside em outro lugar: no convite, no anúncio e na iminência do reino de Deus.

O que posso adiantar é que a espiritualidade devocional, que Jesus veio abolir, procura se expressar e se manter inteligível e relevante através de palavras e conceitos, e a espiritualidade existencial só sabe fazê-lo através de pessoas. A espiritualidade devocional procura encontrar Deus em todo lugar; a espiritualidade existencial procurar fornecer Deus a todos. A espiritualidade devocional tem sonhos e escrúpulos, a existencial não tem ilusões; a espiritualidade devocional pede confortos para si, a existencial provê conforto para os outros; a espiritualidade devocional submete-se à ilusão da vontade do grupo, a existencial exige o preço do autoconhecimento; a espiritualidade devocional busca sinais de que Deus esteja ouvindo, a existencial busca fornecê-los. A espiritualidade devocional almeja a intervenção de Deus e o controle do homem, a espiritualidade existencial quer a intervenção do homem e o reino de Deus.

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quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

A faculdade de despojar-se

Paulo Brabo


O Filho do Homem, que propunha incessantemente que não havia nada de errado em acumular riquezas, a não ser uma imaculada insensatez, gostava de pontuar que havia uma única e inequívoca vantagem em possuir: a capacidade de despojar-se. Em suas histórias todos despojam-se, e de todas as coisas: o rico comprador de pérolas, o pai do rapaz que pede a herança, o samaritano na beira da estrada, o cidadão de quem exigem a túnica, a viúva pobre diante de sua única moeda, o príncipe diante da soma imperdoável, o dono da fazenda e seu filho diante de seus agricultores.

Foi essa, obviamente, a faculdade que Jesus quis apontar ao jovem rico que cumpria desde a sua infância todos os mandamentos.

Venda tudo que você possui e dê aos pobres.

A subversão que ele...

A subversão que ele propunha era de fato assombrosa. Jesus estava na verdade dizendo, abrace sua posição privilegiada e a oportunidade que apenas você tem: despoje-se. Ouse, transgrida; deleite-se e refestele-se na arrebatadora liberdade de despir-se, ainda no caminho, do que o limita e constrange o seu avanço.

Não foi, obviamente, a fé na suficiência da riqueza que impediu o jovem rico de dar o temível passo que o faria avançar; ninguém de fato acredita na suficiência da riqueza, especialmente e em primeiro lugar os ricos. O que o impediu de avançar foi sua fé, sua exorbitante fé, na suficiência dos mandamentos.

Cumprir a justiça é sempre confortável e limitante demais, pelo que o rabi de Nazaré insiste que a justiça deve ser constantemente ultrapassada (ai de vocês se a sua integridade não exceder a dos mais devotos carolas). E o que pode ultrapassar a justiça é apenas o amor, que não tem critérios (dê aos pobres) e não admite exceções (venda tudo que você tem).

Para o jovem rico, dar ouvidos a Jesus teria representado pisar descalço e sozinho e nu o terrível terreno da liberdade e da responsabilidade – o imoderado domínio que se chama reino de Deus, – mas para adentrá-lo teria sido necessário despojar-se dos mandamentos.

E isso ele não ousou fazer, porque os tinha cumprido desde a infância.

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