segunda-feira, 26 de julho de 2010

Proclamando Jesus: uma narrativa e um narrador de peso

por Daniel Oudshoorn

[retirado do site Bacia das Almas de Paulo Brabo]

Se é para os cristãos redescobrirem sua identidade única e falarem uma linguagem que tenha a capacidade de transformar Babel, devem estar fundamentados naquilo que Mortimer Arias chama de “a lembrança subversiva de Jesus”. Jesus é o coração da fé cristã e por isso a narrativa de Jesus deve estar no centro da proclamação cristã. Jesus representou o ponto alto de uma tradição profética, e foi mestre em usar a linguagem de modos inovadores. Ele era mestre em contar histórias, e a igreja deve observar o exemplo deixado por ele.

Jesus narrava constantemente a história de Israel; ele trazia à memória do povo de Deus a sua história, e ao contar essa história capacitava o povo a participar ativamente de sua própria história. Ele recontava a história de Israel de modo a demolir as visões de mundo de seus ouvintes e remoldá-las ao redor de si mesmo. Jesus tinha pouco interesse em expressar verdades eternas, mas contava histórias subversivas que exigiam ação imediata.

Porém, embora usasse uma linguagem que suas audiências tomariam por familiar, Jesus imprimia às palavras um novo sentido. Ele falava do perdão dos pecados, da vinda do reino de Deus e da volta de Iavé a Sião, mas proclamava que esses eventos estavam ocorrendo de modos inesperados. Ele narrava “histórias estranhamente familiares, mas com a lição de moral invertida”. Sendo assim, ele tomou os símbolos centrais da identidade judaica (a terra, a família, a Lei e o Templo) e submeteu-os a uma reformulação radical.

Por essa razão, as histórias e parábolas de Jesus só podem ser entendidas à luz do modo como ele vivia. Separada das suas atitudes, a mensagem de Jesus é incompreensível, aparentando ser um completo contra-senso. Jesus aceitou a afirmação de seus discípulos de que era o messias, mas imediatamente a seguir passou a falar de sofrimento, revelando um novo modo de se ser o messias. Jesus afirma que o reino de Deus é chegado, mas revela que ele veio para os pobres e marginalizados. São as curas e os episódios de mesa comunal que interpretam o que Jesus quer dizer quando fala da chegada radical do reino. São os atos de Jesus que confirmam e sinalizam a realidade de suas palavras. A existência inteira de Jesus está mesclada a essa proclamação; seu ensino não pode ser separado de suas ações.

Ao contar histórias subversivas e anunciar o perdão dos pecados, Jesus atrai inevitavelmente a ira das autoridades religiosas e estatais contra ele. Elas tem consciência de que se sua proclamação e modo de vida receberem continuidade, não apenas causarão a reforma do sistema, mas terminarão por invalidar o sistema como um todo. Jesus não apenas questiona os que controlam a moralidade, ele desafia as realidades econômico-políticas que jazem por trás da moralidade. Essencialmente, a mensagem de Jesus abolia tudo que justificava as desigualdades políticas e econômicas. Não é de admirar que ele falasse em parábolas e viajasse com tanta frequência; se tivesse falado claramente e permanecido dentro de Jerusalém, teria sido eliminado muito antes de formar uma comunidade ao redor de si.

Se deve seguir os passos de Jesus, a igreja deve estar firmemente enraizada nas histórias do evangelho e na narrativa mais ampla das interações de Deus com seu povo e com o mundo. A igreja deve proclamar a narrativa de Deus. Se vai chegar a conhecer sua verdadeira identidade, deve lembrar-se de onde veio. Isso quer dizer que os cristãos que fazem parte de igrejas comprometidas com a Cristandade formal ou com Babel devem aprender a contar a narrativa cristã de um modo que se mostre subversivo e incômodo, principalmente e em primeiro lugar, para o próprio povo de Deus. Da mesma forma que Jesus investiu contra marcas da identidade judaica como o sábado, as leis alimentares, a circuncisão e o dízimo, os cristãos dos nossos dias que são seguidores de Jesus devem aprender a atacar os emblemas de identidade que definem as igrejas ocidentais. Num mundo em que o mercado sequestrou os símbolos do cristianismo, a igreja deve descobrir maneiras de recapturar o poder de suas imagens.

Tony Campolo é exemplo de uma voz que tem tentado realizar isso. Num discurso frequentemente citado, Campolo fala sobre pobreza e em seguida lamenta o fato de que os cristãos “não façam merda nenhuma para mudar isso”. Ele prossegue explicando que o que o deixa realmente chateado é o fato de que a maior parte dos cristãos fica mais furiosa por ele ter dito “merda” do que diante de tudo que ele disse sobre pobreza. Campolo subverte aqui um dos emblemas da identidade cristã contemporânea (a convenção de não dizer palavrões) e conclama as igrejas ocidentais a voltarem a uma compreensão da fé fundamentada no evangelho.

Se tem esperança de engajar-se de modo missional com o mundo, a igreja deve contar a história de Jesus e deve encarnar a história de Jesus. Deve recordar a narrativa de Jesus de modo a ser mais uma vez capacitada a viver dentro dela.

domingo, 27 de junho de 2010

Qual é a vontade de Deus pra mim?

por Caio Fábio

Obviamente a vontade de Deus é de Deus.

Sim! A vontade Dele é Dele; e de mais ninguém.

Jesus disse que comia a vontade do Pai, que se alimentava dela.

Ora, se eu tenho muitas vontades e se as exerço de modo pessoal e incompartilhável, que não dizer da vontade de Deus?

“Quem conheceu a mente do Senhor?”

Além disso, o que me separa de Deus em todos os sentidos possíveis é infinitamente mais do que o que separa de um organismo mono-celular.

Assim, Deus se revela às amebas como as amebas podem processar.

Ora, o mesmo Deus faz com os homens!

O problema é o surto humano. Sim! O homem crê que é “capaz de Deus”, e, sobretudo, de dizer aos outros humanos qual seja a vontade de Deus para o outro.

A vontade de Deus é uma só: que nos amemos uns aos outros!

Deus não tem planos profissionais para ninguém. Nem de qualquer outra natureza tópica. O plano de Deus, não importando onde eu esteja, é que eu ame e pratique o amor. O resto é insignificante!

É o que Paulo diz quando afirma: “... ainda que eu...” fale línguas de homens e anjos, ou profetize, ou saiba todas as ciências e adquira todas as sabedorias, ou me entregue às praticas de martírio ou de entrega social de todas as minhas produções aos demais homens necessitados, mas, “se não tiver amor, nada me aproveitará”; e mais: nada será vontade de Deus.

Paulo nunca discutiu nada disso. Sabia fazer tendas. Mas era chamado para pregar. Por isso, tendo dinheiro para entregar-se apenas à pregação, assim fazia. Mas se não tinha, então, fazia tendas, e, pregava nas horas possíveis.

Ou seja:

Paulo tratava tudo com simplicidade, pois, a vontade de Deus era amor, e, amor, cabe em qualquer oficina de tendas.

As pessoas perguntam, referindo-se aos detalhes da vida, como se eu ou qualquer outro ser ameba humano pudéssemos responder: Qual é a vontade de Deus para a minha vida?

Ora, eu posso responder, mas a resposta que tenho a dar não satisfaz as pessoas que querem saber a vontade de Deus como um guia afetivo e profissional das jornadas na Terra.

Então, não sei!... Afinal, nessas coisas, à semelhança de Paulo, apenas uso o bom senso para decidir, e nunca o faço como quem consulta um “guia de jornada”, mas apenas como uma decisão de agora, da circunstancia do existir; e isto, sempre, apenas conforme o espírito do Evangelho, que é amor.

A vontade de Deus são os Seus mandamentos, embora Jesus tenha nos dito que até os mandamentos, sem que sejam vividos em amor, são desagradáveis a Deus; pois, sem amor, todo mandamento não passa de presunção e arrogância.

A vontade de Deus é amor, alegria, paz, bondade, longanimidade, mansidão e domínio próprio!

Se você faz isso entregando o lixo, operando na mais rica clinica de neurocirurgia, ou se o faz pregando como um ensinador da Palavra, não importa; pois, a única coisa que importa para Deus é se você vive ou não o amor como o mandamento de seu ser.

O que Deus quer de mim? Onde quer que eu trabalhe? Com quer que eu case?

Ora, Jesus não respondeu tais perguntas a ninguém!

Quando Pedro quis saber... Jesus apenas disse: “Que te importa? Quanto a ti, vem e segue-me”.

Quanto mais a pessoa se dispõe a andar em amor e fé, sem buscar mais nada, tanto mais ela encontrará uma sintonia fina com Deus e com a vida, e, assim, sem que ela sinta, irá sendo posta no leito do rio de sua própria vida.

É claro que Deus tem a vontade que diz “não”. Mas essa é a não-vontade de Deus. É o que Deus não quer, pois, é o que Deus não é.

Deus não é mentira, nem engano, nem ódio, nem cobiça, nem traição, não injustiça, nem maldade, nem indiferença, nem descrença, nem altivez, nem orgulho, nem arrogância, nem vaidade, nem medo e nem frieza de ser.

Assim, a tais coisas Deus diz “não”, mas não como quem diz a Sua vontade, mas apenas aquilo que não é vontade Dele.

Portanto, a vontade de Deus não é “não”, mas “sim”, embora a maioria apenas pense na vontade de Deus como negação.

Ou seja:

Para tais pessoas Deus é Aquele que diz “Não”.

A proporção, todavia, continua idêntica à que foi estabelecida no Éden. Pode-se comer de tudo, e, apenas diz-se não a uma coisa: inventar a nossa vontade contra essa única coisa à qual Deus disse “não”.

Todas as árvores do Jardim são comestíveis, mas, continuamos discutindo a única arvore proibida, tamanha é a nossa fixação na transgressão como obsessão na vida.

Entretanto, a vontade de Deus é sim, e, para aqueles que desejam fazer a vontade de Deus, e não apenas discuti-la, Deus revela Sua vontade como fé e amor, e, nos diz que se assim vivermos provaremos tudo o que é bom, perfeito e agradável, não porque a vida deixe de doer, mas apenas porque o pagamento do amor transcende a toda dor.

A vontade de Deus é que eu desista das coisas de menino nesta vida e abrace as coisas de um homem segundo Deus.

Agora, se você vai trocar de casa, de carro, de mulher, de emprego, de cidade, de país, de nome — sinceramente, é melhor consultar um bruxo, uma feiticeira ou um profeta que aceite pagamento para contar tal historinha.

Você pergunta a Jesus:

Senhor, qual é a Tua vontade para mim?

Ele responde:

É a mesma para todos os homens. Sim! Que você ame e pratique o amor, pois, sem amor, nada será vontade de Deus para você, ainda que você distribua todos os seus bens aos pobres e entregue o seu corpo para ser queimado em martírio de dignidade pela consciência e pela liberdade.

Dá pra entender ou é difícil demais?

Que tal a gente parar de brincar de vontade de Deus? Vamos?

Chega; não é gente?


Nele, que é a vontade de Deus para o homem,

texto retirado do site www.caiofabio.net

domingo, 20 de junho de 2010

AOS CRENTES MÁGICOS...

por Caio Fábio

Uma das coisas que sempre me impressionaram na natureza humana é a nossa capacidade de criar qualquer realidade que desejemos; e, a seguir, projetá-la em alguém, em alguma coisa, em algum lugar ou individuo; ou ainda sobre uma instituição, seja ela de qual natureza for... — para, então, entregarmo-nos à fantasia... como se aquilo fosse a coisa mais real e genuína possível; até que depois de um tempo..., ao verificar que espinheiros não dão uva, saímos chorando, chocados, lamuriando contra Deus e a existência, sentido-nos enganados; e tudo porque espinheiros dão espinhos e videiras dão uva, embora nós tenhamos teimado em plantar uma natureza e esperando ceifar a outra...

Assim, relembrando que espinheiros não dão uvas, digo:

Toda mentira adoece o mentiroso, e inicia nele uma doença na mente; a doença da fantasia armada e destrutiva; além de que faz dele um ser mau caráter, pois, toda falsificação da realidade é a própria criação do diabo no interior do inventor, do mentiroso...

Não existe boa traição. Toda traição é traição, ainda que seja do policial ao bandido; e a sua conseqüência é que todo traidor fica pior do que qualquer traído, por pior que ele seja; e mais: quanto melhor for o traído, pior ficará o traidor...

Não existe pai e mãe que mereçam ser desonrados. Quem desonra pai e mãe deflagra o mecanismo de autodestruição no ser... Por isto ele não será longevo na alma...

Não existe o lúcido adorador de ídolos... Quem adora a um ídolo fica sempre menor do que ele, até que nele se dissolva...



Ninguém cuja profissão existencial seja perseguir acabará a vida doce...

Quem dissimula com habilidade se torna o diabo de si mesmo para sempre...

Quem dá falso testemunho cria para si mesmo aquilo que falsamente testemunhou...

Todo aquele que julga e decide o destino de alguém, cria para si mesmo o padrão pelo qual Deus o julgará...

Quem entrega os tesouros de sua alma a alguém que não seja confiável, será devorado pelo suíno que receber tais preciosidades como dádivas de um insensato...

Quem não serve copos de água ao sedento jamais beberá da fonte da água da vida...

Quem nada dá a ninguém, esse nunca terá o que seja Graça de Deus...

Quem ama a morte é filho do inferno...

Quem odeia é sócio do diabo na destruição da vida; e com ele compartilhará o mesmo destino...

Quem trama o mal ficará louco e paranóico, e morrerá de suas próprias armadilhas...

Todo aquele que inveja se torna o mais feio dos homens...

O arrogante é o coveiro de sua própria sepultura...

O sedutor vira lesma gosmenta na alma... E ele mesmo morrerá sem se suportar...

Todo aquele que vive para esconder um dia não mais saberá o caminho de volta de seu próprio labirinto de enganos e ocultamentos...

Assim é a vida...

E não há oração, unção, mágica ou poder algum que possam mudar a natureza de tais coisas!

Bem-aventurado o que crê na verdade da realidade e na realidade da verdade!

O que passar disso..., é tentativa de fazer mágica na existência!...




Nele, que nunca nos mandou praticar mágica, pois Ele não acredita em mágica,



Caio
2 de agosto de 2009
Lago Norte
Brasília
DF

Texto retirado do site: www.caiofabio.net
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