quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Por que ir à igreja é o menor dos seus problemas

por Paulo Brabo


Estou inteiramente convicto (e já devo ter deixado suficientemente clara essa posição) de que a fidelidade de uma pessoa ao ensino, à herança e às expectativas de Jesus não tem nenhuma relação com a assiduidade da participação dessa pessoa nas atividades de uma agremiação religiosa de sua escolha. Sou ao mesmo tempo obrigado a apontar constantemente, através de citações e circunlóquios, que nada há de novo ou de original nessa idéia aparentemente revolucionária. Seria especialmente inexato chamá-la de revelação recente, visto que essa mesma noção tende a voltar periodicamente à tona ao longo dos séculos, e já esteve presente, por exemplo, na boca coletiva de Erasmo, de Tolstói, de Dostoiévski, de H. G. Wells, de Harnack, de Feuerbach, de Kierkegaard, de Simone Weil, de Bonhoeffer e – ainda mais tremendo e prenhe de consequências – do próprio Jesus, de seus primeiros seguidores e de seus primeiros biógrafos.

Por outro lado, é inteiramente natural que a idéia soe inédita e subversiva a cada vez que é articulada. Porque, se for verdade (como vejo que é), e se for cada vez mais aceita como verdade (como penso que está sendo, e por inúmeros motivos), haverá portentosas consequências para todo mundo.

Haverá, por exemplo...

Haverá, por exemplo, graves consequências para as próprias agremiações de que estamos falando. Outro dia alguém me escreveu, em tom de jocosa provocação, perguntando o que deveriam fazer os pastores evangélicos se todas as suas ovelhas seguissem os passos do Paulo Brabo e deixassem sumariamente de frequentar suas próprias igrejas. A resposta, que mandei imediatamente, não poderia ter sido mais enfática: “deveriam, evidentemente, tomar por concluída a sua tarefa!”

Se essa noção for sendo aceita como verdadeira, haverá ainda toda uma gama de consequências para os próprios frequentadores e ex-frequentadores de igreja, bem como para os candidatos a uma coisa e outra. Em especial, o que persiste no ar neste momento (em que um número cada vez maior de cristãos parece estar inteiramente pronto a debandar sensatamente do jugo da formalidade eclesiástica e abraçar a vertiginosa vocação do cristianismo secular) é a tentação de pensar que o ato escrupuloso e heróico de deixar de ir à igreja representa o atingimento de uma nova e notável estirpe de maturidade espiritual, um nirvana ao qual a massa dos igrejeiros, em sua cegueira e obtusidade, parece estar tão distante de alcançar.

É hora, evidentemente, de tratar deste assunto, e esta é a justificativa destas reflexões. Porque pode ser que você sinta-se finalmente pronto para dar o definitivo e corajoso passo na direção de Deus e para longe da religião; talvez você sinta-se enfaticamente chamado a participar da esclarecida elite dos que entenderam a mensagem secreta de Jesus e estão prontos a abraçar as consequências rigorosíssimas desta gnose; talvez você sinta-se inequivocamente desafiado a abandonar os confortos da igreja institucional em favor do cristianismo puro e simples daquele que não tinha, não tem e não terá onde reclinar a cabeça.

Pois se você se encaixa neste perfil, jovem candidato, o que você precisa ouvir é que a motivação legítima para abandonar a instituição deve ser a custosa consciência de não ser melhor do que ninguém, e não a gostosa conclusão de ter alcançado maior compreensão do que alguns; deve ser a insana disposição de abraçar a comunhão com todos, não a elite com uns poucos; deve nascer de uma nova capacidade de encontrar sensatez em todas as tradições religiosas, e não de uma velha habilidade de apontar adequadamente os defeitos da sua. Deve estar relacionada à vontade de abrir todas as portas, e não ao alívio de ver fechada uma. Antes de decidir deixar de fazê-lo, é preciso sacar que frequentar uma igreja é provavelmente o menor dos seus problemas.

A verdade, incrivelmente, é que Jesus não veio libertar você ou quem quer que seja daquilo que costumo chamar de igreja formal ou institucional.

Ele deixou claro, e disso não deve haver dúvida, que cada seguidor seu deve ser capaz de abraçar simultaneamente o peso da liberdade e a graça da responsabilidade. Ele chegou a dizer que este seria um caminho estreito, adotado por poucos ou com muito custo, mas não chegou a dizer onde o caminho levaria ou o que exigiria – provavelmente porque cada um teria de encontrar sua própria resposta, e no final haveria uma resposta para cada pessoa. Ele sem qualquer dúvida denunciou espetacularmente as armadilhas e tentações da religiosidade formal e mostrou-se invariavelmente pronto a criticar os religiosos profissionais em sua missão autoimposta e diabólica de semear a culpa e endossar a opressão. Por outro lado, e deve ser a hora de enfatizarmos isso, Jesus não chegou a convidar uma única pessoa, fosse um judeu trêmulo ou um carola romano pagão, a abandonar ou rejeitar sua própria tradição religiosa.

A tremenda singularidade dos evangelhos não está na revelação de que Deus não exige os sacrifícios da religiosidade e não encontra prazer neles; isso os profetas haviam deixado suficientemente claro quatrocentas páginas antes. A reviravolta trazida pelo exemplo, pela palavra e pela pessoa de Jesus é, como em tudo que diz respeito a ele, ao mesmo tempo mais exigente e mais sutil; é ao mesmo tempo mais pessoal e mais universal. Jesus não veio libertar o homem religioso das instituições religiosas, veio libertar a humanidade inteira de um paradigma ainda mais debilitante e infantilizante, de uma visão de mundo que chamarei, em regime temporário e na falta de melhor termo, de espiritualidade devocional.

Em tudo que faz e diz Jesus ao longo dos evangelhos promove a demolição dessa estirpe devocional de espiritualidade, propondo em seu lugar uma nova e revolucionária alternativa – uma espiritualidade, por assim dizer, existencial. Ao longo desta série de artigos quero deixar claro esta distinção e este método.

O fato é que a espiritualidade devocional é de tal modo insidiosa que você pode abandonar a igreja formal e ainda permanecer inteiramente aleijado pela espiritualidade devocional; em contraste, há os que permanecem voluntariamente debaixo das disciplinas (sempre arbitrárias) da instituição mas já foram inteiramente salvos das cadeias e escamas da espiritualidade devocional, e estes de nada mais precisam ser libertos. É por isso que é preciso ficar claro que deixar de ir à igreja não resolve nenhum problema e não envolve mérito algum. Frequentar a igreja é nada, e deixar de fazê-lo nada é; pelo contrário, sete demônios novos podem estar prontos para assumir o lugar daquele que você pensa que expulsou.

Aquilo de que precisamos ser salvos é da espiritualidade devocional – em favor de uma espiritualidade essencial e existencial, e isso pela exposição ao espírito subversivo de Jesus. É verdade que, em termos estritos, nenhuma manifestação exclusivista e proselitista de religião formal sobreviverá (e estou agora esperando que tudo dê certo) à vitória final da espiritualidade existencial. O que teremos na conclusão será uma forma inegociavelmente generosa e inclusiva de ortodoxia, mas esta é outra história. A missão de Jesus não é acabar com a religião. Embora a capitulação da religiosidade seja o resultado inevitável da assimilação universal da sua mensagem, seu cerne pulsante reside em outro lugar: no convite, no anúncio e na iminência do reino de Deus.

O que posso adiantar é que a espiritualidade devocional, que Jesus veio abolir, procura se expressar e se manter inteligível e relevante através de palavras e conceitos, e a espiritualidade existencial só sabe fazê-lo através de pessoas. A espiritualidade devocional procura encontrar Deus em todo lugar; a espiritualidade existencial procurar fornecer Deus a todos. A espiritualidade devocional tem sonhos e escrúpulos, a existencial não tem ilusões; a espiritualidade devocional pede confortos para si, a existencial provê conforto para os outros; a espiritualidade devocional submete-se à ilusão da vontade do grupo, a existencial exige o preço do autoconhecimento; a espiritualidade devocional busca sinais de que Deus esteja ouvindo, a existencial busca fornecê-los. A espiritualidade devocional almeja a intervenção de Deus e o controle do homem, a espiritualidade existencial quer a intervenção do homem e o reino de Deus.

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quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

A faculdade de despojar-se

Paulo Brabo


O Filho do Homem, que propunha incessantemente que não havia nada de errado em acumular riquezas, a não ser uma imaculada insensatez, gostava de pontuar que havia uma única e inequívoca vantagem em possuir: a capacidade de despojar-se. Em suas histórias todos despojam-se, e de todas as coisas: o rico comprador de pérolas, o pai do rapaz que pede a herança, o samaritano na beira da estrada, o cidadão de quem exigem a túnica, a viúva pobre diante de sua única moeda, o príncipe diante da soma imperdoável, o dono da fazenda e seu filho diante de seus agricultores.

Foi essa, obviamente, a faculdade que Jesus quis apontar ao jovem rico que cumpria desde a sua infância todos os mandamentos.

Venda tudo que você possui e dê aos pobres.

A subversão que ele...

A subversão que ele propunha era de fato assombrosa. Jesus estava na verdade dizendo, abrace sua posição privilegiada e a oportunidade que apenas você tem: despoje-se. Ouse, transgrida; deleite-se e refestele-se na arrebatadora liberdade de despir-se, ainda no caminho, do que o limita e constrange o seu avanço.

Não foi, obviamente, a fé na suficiência da riqueza que impediu o jovem rico de dar o temível passo que o faria avançar; ninguém de fato acredita na suficiência da riqueza, especialmente e em primeiro lugar os ricos. O que o impediu de avançar foi sua fé, sua exorbitante fé, na suficiência dos mandamentos.

Cumprir a justiça é sempre confortável e limitante demais, pelo que o rabi de Nazaré insiste que a justiça deve ser constantemente ultrapassada (ai de vocês se a sua integridade não exceder a dos mais devotos carolas). E o que pode ultrapassar a justiça é apenas o amor, que não tem critérios (dê aos pobres) e não admite exceções (venda tudo que você tem).

Para o jovem rico, dar ouvidos a Jesus teria representado pisar descalço e sozinho e nu o terrível terreno da liberdade e da responsabilidade – o imoderado domínio que se chama reino de Deus, – mas para adentrá-lo teria sido necessário despojar-se dos mandamentos.

E isso ele não ousou fazer, porque os tinha cumprido desde a infância.

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terça-feira, 3 de novembro de 2009

BEM-AVENTURADOS OS INSACIÁVEIS!

Caio Fábio


Mateus 5:6; 6:25-34

O conceito humano de SANTIDADE relacionado ao mundo material, faz com que se admire uma pessoa e sua espiritualidade tanto mais quanto essa tal pessoa possa viver em simplicidade, com muito pouco, ou quase nada; e, assim, nesse estado, viva contente.

Desse modo, quanto menos uma pessoa precise para viver, mais revela sua beleza e sua perfeição de consciência; e mais será admirada pelos homens. Assim, quanto MENOS prisão e desejo pelo que é material, mais liberdade e contentamento.

Mas esse mesmo princípio—o de desejar pouco, ou quase nada—não se aplica em relação a Deus. No que respeita a Deus a SANTIDADE é a sede, é a fome, é a necessidade, é busca, é o desejo de ter mais, de ser mais em Deus e para Deus...e que é fruto de se saber como um “MENOS”, como o menor, como o mais carente.

“Dos pecadores eu sou o principal”—dizia Paulo.


Portanto, quanto mais imperfeito for o homem para si mesmo, e quanto mais carente de Deus, tanto mais perfeito será o seu imperfeito caminhar.

Precisar de Deus não é vergonha. Alias, nada eleva tanto um ser humano quanto sua pobreza espiritual, sua fome, sua necessidade.

Nada há mais horrível do que se ver alguém que passa pela vida sem sentir falta de Deus; sem achar que precisa Dele.

Afinal de contas, o que é o homem?

Jesus disse em Mateus capítulo seis que o homem não é um show cósmico de ornamentos. Lírios são externamente mais belos!

A vida do homem não consiste nos bens que possui, e nem sua beleza humana se manifesta como afirmação de pobreza como virtude.

O que torna um homem grande é sua pequenez; e, sobretudo, sua consciente carência de Deus!

Assim, paradoxalmente—como sempre—, o grande poder de um homem vem de sua total consciência de fraqueza.

Sim, o poder de um homem vem de sua total admissão de incapacidade quanto a realizar qualquer coisa. Sim, o poder do homem vem dele dizer e crer que sem Deus nada se pode fazer.

Quando sei que não posso Nada, então, nada podendo, Deus pode por mim.

Desse modo, a virtude humana diante de Deus é o inverso de sua virtude diante dos homens; pois se entre os homens o santo é que não precisa de quase nada, e vive contente; todavia, diante de Deus, o homem que caminha em perfeição é justamente o que carece, o que quer mais, o que não se contenta...e tem sede.

Isto porque mesmo que alguém aprenda a se contentar materialmente com Nada, ou quase isso; no entanto, em Deus, e no espírito, ele só será coerente com seu próprio caminho de simplificação material, se, todavia, viver como alguém que pede, busca, bate, e confessa total carência.

Isto porque aquilo que é elevado diante dos homens, disse Jesus, é abominação diante de Deus; inclusive o show de simplicidade e virtuosismo material—pela simplificação dos desejos materiais—, que de nada vale se o coração não viver sempre com fome, e almejando comer o Pão que está na mesa de Deus.



Caio

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segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Vídeo da ABC News:

Crianças Acusadas em Nome de Jesus


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terça-feira, 6 de outubro de 2009

A Regra do Argueiro da Fé

Paulo Brabo

Ao contrário de nós, Jesus não tinha medo de que as pessoas se recusassem a ter fé em Deus: o que ele temia era a conduta dos que afirmavam ter. A falta de fé só deve ser lamentada quando não há evidência de fé em quem afirma que a tem.

Certa vez, numa conversa à beira do Jordão, Tomé articulou a coisa da seguinte forma (e imediatamente dei a essa sua fórmula o nome de “Regra do Argueiro da Fé”): Não lamente a falta de fé dos outros: lamente a sua própria conduta.

Fragmentos do Segundo Evangelho de Pedro, XII, 3-5

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